América Latina sob a Órbita de Trump
Enquanto alguns países se alinham voluntariamente a Washington, outros enfrentam sanções e pressão militar para se adequar às diretrizes da Casa Branca. Ainda assim, quase toda a América Latina opera, em diferentes graus, dentro da agenda estabelecida pelo presidente norte-americano Donald Trump. Desde o retorno do republicano ao poder, no início de 2025, a região voltou a ocupar papel central na política externa dos Estados Unidos.
As estratégias utilizadas pela administração Trump são variadas: pressão econômica contra adversários, pacotes de assistência financeira a aliados e ameaças de ação militar — que se concretizaram em janeiro deste ano com um ataque direto na Venezuela, a primeira intervenção militar norte-americana no território sul-americano.
A Doutrina Monroe Revisitada
As intenções da Casa Branca foram formalizadas com a publicação da Estratégia de Segurança Nacional, em novembro passado. O documento afirma que os Estados Unidos irão
"reafirmar e fazer cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental"— referência à política do século 19 sintetizada pela expressão "América para os americanos".
Para Juan Gabriel Tokatlian, professor de relações internacionais na Universidade Torcuato Di Tella, na Argentina, o interesse norte-americano na região é cíclico e historicamente condicionado por fatores externos. A Revolução Cubana de 1959, os atentados de 11 de Setembro e agora a crescente presença da China na América Latina são exemplos de eventos que redefiniram prioridades geopolíticas de Washington. "Esse movimento levou à retirada gradual dos EUA dos principais conflitos em que estiveram envolvidos nos últimos anos, como o do Iraque e o do Afeganistão", afirma o pesquisador.
Aliados por Convite, Subordinados por Imposição
Com uma constelação crescente de governos de ultradireita na região — Argentina com Javier Milei, Chile com José Antonio Kast, Equador com Daniel Noboa, entre outros —, Trump encontra interlocutores mais receptivos do que em seu primeiro mandato. Segundo Tokatlian, esses países cedem "por convite, não por imposição", motivados pela esperança de obter recursos, assistência financeira ou promessas de apoio político.
Um exemplo concreto foi o resgate financeiro norte-americano à Argentina, que evitou uma crise cambial às vésperas das eleições legislativas do país, em outubro. Por outro lado, Venezuela e Cuba enquadram-se em uma lógica diferente: cedem sob coerção. A Venezuela, segundo o pesquisador, teria passado "de uma suposta grande ameaça a uma espécie de neoprotetorado por imposição", enquanto Cuba enfrenta sua maior reforma econômica desde a revolução, pressionada pela crise energética decorrente do bloqueio norte-americano.
A Nicarágua de Ortega: Pragmatismo Acima da Retórica
Mesmo a Nicarágua, cujos líderes Daniel Ortega e Rosario Murillo costumam criticar abertamente o "imperialismo ianque", mantém uma relação funcional com Washington. O país aceita deportados e se posiciona como barreira ao narcotráfico na América Central, o que, segundo Tokatlian, é suficiente para os EUA. "A democracia não está na agenda de Washington, e nada acontecerá com Ortega, mesmo com sua declaração de que não haverá mais eleições", analisa.
Para Michael Shifter, pesquisador e ex-presidente do Inter-American Dialogue, Ortega percebe o caráter transacional de Trump e tenta explorar essa característica. "Não se trata mais de ideologia", afirma Shifter, destacando que o presidente norte-americano não demonstra grande preocupação com direitos humanos ao avaliar seus parceiros regionais.
Brasil e México: Entre a Soberania e a Negociação
O Brasil é apontado por Shifter como o país com maior capacidade de resistir às pressões de Washington na América Latina. Diferentemente do México — que, apesar de seu peso econômico, é considerado dependente demais dos EUA para exercer autonomia real —, o Brasil teria entre suas elites, inclusive em setores conservadores, um senso de soberania que impõe limites à subordinação externa. O México, por sua vez, entregou dezenas de líderes do narcotráfico aos Estados Unidos e mobilizou milhares de soldados para a fronteira desde o retorno de Trump ao poder.
Riscos de Longo Prazo e o Avanço Chinês
Shifter alerta que a política de alinhamento incondicional aos EUA pode ser contraproducente. O histórico de intervenções militares unilaterais de Washington é visto negativamente na região, e a continuidade dessas ações pode gerar ressentimento crescente tanto contra os Estados Unidos quanto contra governos locais percebidos como subservientes. O resultado, segundo o pesquisador, poderia ser um retrocesso nas relações hemisféricas "por muitos anos".
Esse cenário também favoreceria a expansão da influência chinesa. Pesquisas de opinião analisadas por Shifter indicam deterioração da imagem norte-americana e crescimento da percepção favorável à China, especialmente entre jovens. No Peru, esse fenômeno seria particularmente acentuado na faixa etária de 18 a 35 anos. "Não é porque todo mundo ama a China. É porque as pessoas não gostam dos EUA", resume o analista.
Estratégia Real ou Demonstração de Força?
Shifter questiona se as ações de Trump constituem uma nova Doutrina Monroe ou simplesmente uma exibição de poder. Ao contrário da lógica de contenção do comunismo durante a Guerra Fria, o pesquisador vê hoje uma tentativa de projetar dominância militar sem uma estratégia coerente. "Não vejo uma estratégia real. Não vejo coerência no que o governo Trump está fazendo", afirma, referindo-se, entre outros episódios, aos ataques a embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe. "É muito espetáculo", conclui.
Tokatlian, por sua vez, acredita que o interesse norte-americano na América Latina veio para ficar. "Se Trump conseguir controlar a região, ótimo. Nenhum futuro governo democrata vai querer perder isso", afirma, sugerindo que a competição com a China é o fator estrutural que mantém a região no centro das prioridades de Washington independentemente de quem ocupe a Casa Branca.