Virada Histórica nos Gastos Militares Brasileiros

Pela primeira vez na história recente, o programa nuclear da Marinha do Brasil ocupa a primeira posição no ranking de investimentos militares do país. Em 2025, o projeto recebeu aproximadamente 4,5 vezes mais recursos do que no ano anterior, saltando de R$ 311 milhões para cerca de R$ 1,4 bilhão em valores corrigidos. O montante empatou com os gastos destinados ao controle do tráfego aéreo, uma área com forte aplicação civil.

Gripen Perde a Liderança Após Anos no Topo

O projeto de aquisição do caça sueco Gripen, que liderava os investimentos militares desde 2016, caiu para a quarta posição. Em 2025, o programa recebeu R$ 965 milhões, bem abaixo dos R$ 1,6 bilhão registrados no ano anterior. O ritmo de entrega das aeronaves também está atrasado em relação ao contrato firmado em 2014, que previa a operação de todos os 36 aviões — incluindo 15 fabricados no Brasil — até 2024. Até o momento, apenas 11 unidades foram entregues, e a conclusão total do pedido foi postergada para 2032. O governo brasileiro ainda negocia a compra de mais 20 aeronaves, sem que o financiamento esteja definido.

Submarino Nuclear: O Álvaro Alberto

Os recursos destinados ao programa nuclear da Marinha estão diretamente ligados à construção do primeiro submarino nuclear brasileiro, batizado de Álvaro Alberto. Segundo a Força Naval, os valores foram aplicados no aperfeiçoamento do ciclo do combustível nuclear, na implantação de um laboratório de geração de energia nucleoelétrica e no desenvolvimento do reator que será instalado na embarcação. Cerca de R$ 953 milhões foram repassados a empresas contratadas, principalmente para serviços de engenharia.

A etapa considerada mais crítica do projeto — a integração do reator ao casco do submarino — ainda não foi iniciada. O Álvaro Alberto, que originalmente deveria estar em operação em 2025, agora tem previsão de lançamento apenas para 2038, com 13 anos de atraso em relação ao cronograma inicial.

Um Programa com Décadas de História

O programa nuclear da Marinha existe desde 1979 e acumulou avanços significativos ao longo dos anos, como o desenvolvimento de ultracentrífugas para enriquecimento de urânio, o que gerou um embate com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em 2004 sobre o regime de inspeções. Durante o período da ditadura militar, o projeto integrava um esforço mais amplo que incluía a possibilidade de desenvolvimento de armas nucleares. O Brasil optou por abandonar essa ambição em 1990 e aderiu ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) em 1998.

Posicionamento Político do Governo Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem demonstrado interesse renovado no programa nuclear. Em visita à fábrica da empresa de defesa Avibrás, em julho, o presidente declarou que o Brasil precisava se armar diante de um cenário internacional instável, fazendo referência às ações militares do governo americano sob Donald Trump. Lula também lamentou a adesão do Brasil ao TNP, argumentando que as potências já estabelecidas não reduziram seus arsenais enquanto outros países ingressaram no clube nuclear. Na mesma semana, o presidente visitou a sede do programa nuclear da Marinha, em Iperó (SP), e defendeu a priorização do projeto do submarino.

Desafios Técnicos e Diplomáticos pela Frente

Além dos obstáculos técnicos, o avanço do programa esbarra em questões diplomáticas. Para que o submarino nuclear possa operar, o uso de seu combustível precisa ser avaliado e aprovado pela AIEA, que ainda negocia os termos com o Brasil. A preocupação central da agência diz respeito ao risco de proliferação de material nuclear. Militares brasileiros, em declarações reservadas, mencionam pressão por parte das potências nucleares e o interesse da AIEA em que o Brasil adira aos chamados Protocolos Adicionais ao TNP, que preveem um nível de inspeção consideravelmente mais rigoroso.

Panorama Geral dos Gastos Militares

No contexto mais amplo, o Brasil ainda mantém uma baixa taxa de investimento militar. Do total de R$ 133,3 bilhões empregados em defesa em 2025, apenas 8,25% foram destinados a investimentos. A maior parte, 77,7%, foi para despesas com pessoal, e os 14,05% restantes cobriram custos operacionais.

O ranking analisado não contempla o maior programa militar em andamento no país: a construção das fragatas Tamandaré. Por meio de uma manobra jurídica realizada no fim do governo Michel Temer (MDB), uma estatal da Marinha, a Emgepron, foi capitalizada para conduzir o projeto fora do limite de gastos vigente à época. Até 2024, o programa havia consumido R$ 9,6 bilhões, com três embarcações já concluídas. Os R$ 2,4 bilhões alocados ao projeto em 2025 são contabilizados como despesas de estatais, e não do Ministério da Defesa. O Tribunal de Contas da União (TCU) questionou a legalidade da operação, mas ela foi mantida.