Diálogo Inaugural Marca Esforços Conjuntos
O governo interino da Venezuela e a oposição uniram-se em um esforço conjunto para reaver as reservas de ouro do país, atualmente retidas na Inglaterra, e para impulsionar uma reforma essencial no sistema judicial. Este anúncio surge após a conclusão da primeira fase de negociações, iniciadas em 6 de agosto, com o objetivo de pavimentar o caminho para uma transição democrática. As conversações, que contaram com o apoio dos Estados Unidos, ocorrem sete meses após a derrubada e captura do então presidente Nicolás Maduro em uma operação militar americana.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, expressou satisfação com o diálogo, que terá continuidade em data ainda a ser definida. Em uma mensagem divulgada via Telegram, Rodríguez conclamou todas as forças políticas a se engajarem no processo, priorizando o bem-estar, a paz, a estabilidade e o desenvolvimento da Venezuela.
Lideranças e Pautas das Negociações
As delegações foram encabeçadas por Jorge Rodríguez, presidente do Parlamento e irmão da presidente, e por Dinorah Figuera, líder da bancada oposicionista que conquistou a maioria na Assembleia Nacional em 2015. É notável que a líder opositora e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, atualmente exilada no Panamá, não participou diretamente das conversas, embora tenha declarado não ser contra o processo.
Um dos principais avanços divulgados por Figuera foi o acordo para a transformação do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), incluindo um novo mecanismo para a indicação e nomeação de magistrados. A oposição tem insistido na reforma do TSJ, que havia validado a reeleição de Maduro em 2024, considerada fraudulenta. A reestruturação deste tribunal é vista como crucial para a convocação de futuras eleições.
Recuperação das Reservas de Ouro
Jorge Rodríguez, presidente do Parlamento, confirmou que as partes "unirão esforços para promover a recuperação dos ativos das reservas internacionais da Venezuela no Banco da Inglaterra". Há algumas semanas, a presidente venezuelana havia enviado uma carta ao rei britânico Charles III, solicitando a liberação do ouro depositado no Banco da Inglaterra. O objetivo era utilizar esses recursos para auxiliar as vítimas do duplo terremoto que atingiu o país em 24 de junho, resultando em mais de 6.300 mortes.
Os lingotes de ouro venezuelanos no Banco da Inglaterra são avaliados em aproximadamente US$ 1,9 bilhão (equivalente a R$ 9,9 bilhões). O Reino Unido tem impedido a Venezuela de acessar esses fundos, uma vez que não reconheceu a reeleição de Maduro. Desde 2019, a oposição, que detinha a maioria parlamentar na época, iniciou um processo para evitar que o governo deposto tivesse acesso a esses recursos.
Durante o processo, Figuera se reuniu separadamente com representantes de presos políticos, de aposentados e do sindicato de jornalistas. Ela prometeu levar suas reivindicações à mesa de diálogo.
Uma opositora próxima às negociações, que preferiu manter o anonimato, revelou à AFP que "há comunicação direta entre as delegações e os Estados Unidos, e quando há algum tema especialmente sensível, a mediação é acionada". Ela ressaltou que, apesar da "mudança de atitude" do governo, a oposição mantém uma postura cautelosa e não ingênua.